É provável que uma boa parte daqueles que algum dia lerão isto aqui já conheçam essa música e talvez até já tenham visto o vídeo, mas eu o conheci a apenas alguns dias.
Apesar de ser extremamente caricata a apresentação que se dá da classe média, é uma caricatura válida. Talvez um exagero, com certeza uma generalização. Mas o é desta forma por identificar com clareza as regularidades do comportamento da classe média brasileira.
Pra mim a melhor parte da música, a parte que ilustra com a maior clareza a classe média, é "odeio coletivos e vou de carro que comprei a prestação". Tá aí o retrato da ideologia individualista e hipócrita de nossa classe média. Tá ai a classe média escondendo a sua condição real, emulando seu comportamento em comparação às elites brasileiras.
Não quero também exaltar as elites, pô-las como dignas de suas riquezas. Não! Não o são não por minha vontade, mas porque de fato não são. "Toda propriedade é um roubo", já disse Proudhon e toda a desigualdade deve ser combatida, dizem meus amigos.
Mas o que a música mostra é a forma com que a classe média, sob um discurso meritocrático e falsadamente democrático, contribui para a reprodução da desigualdade e para a permanência das (ausentes) condições de vida da população brasileira.
E algo que o vídeo mostra, em complementação perfeita com a música, é de como a classe média é tão vazia de significado que funciona como uma bela marionete da grande mídia.
Enfim, o vídeo é muito pedagógico, e isso talvez seja o que eu mais gostei dele. É crítico, porém não radical. Não se dirige para a militância, mas apenas desnaturaliza algumas questões do nosso quotidiano. Achei fantástico até mesmo para usar em sala de aula, quando for professor de sociologia no Ensino Médio.
Sem mais, fica ai a letra:
CLASSE MÉDIA
Max Gonzaga
Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida
Esse seu comentário ficou bem próximo do Veblen. A classe média tenta a todo tempo emulações com um trabalho com um remuneração mais alta. Mas sempre tem essa necessidade de trabalhar, parcelar..tudo isso às custas de uma manutenção de status...
ResponderExcluirTem uma musica do Dead Fish que chama "Sonho médio" ela fala de tudo isso depois fraga lá.
é, na hora que pensei em emulação, lembrei do Veblen também. É até bom isso, o vídeo serve até de exemplo pra explicar ai o consumo vicário, a emulação e todas aquelas coisas do alexandre cardoso..hahahah
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